Agora eu quero ir

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Esta é a primeira vez que lhe escrevo assim, dessa forma. Cá estou, em um dos momentos mais repletos de mudanças em minha vida, sentada à uma mesa qualquer em uma praça de alimentação, numa tentativa de sintetizar em poucas palavras esse turbilhão que não tem se contentado com o espaço aqui de dentro.

Você sabe, sempre lidei bem com a mudança. Sempre fui flexível, adaptável. Mas quando se trata de você, eu me atenho, me entranho. Reluto. Como deixar ir? Logo você, que apareceu quando eu mais precisei, que me tanto me alavancou, que me ajudou descobrir o mundo como ele é (ou como pode ser pra mim). Logo você… Mas tinha que ser.

É duro admitir que as coisas só já não são mais como eram. Talvez fosse mais fácil se nos olhassem e enxergassem um grande desastre, como se estivéssemos prestes a colidir. Mas não, não há motivo grande o suficiente para que justifiquemos qualquer partida. Parece injusto, eu sei.

Somos tão bons juntos. Mas, você sabe, talvez até melhor que eu, que esse “bom” já não é mais o suficiente. É bom, mas não traz mais aquele sorriso que a gente sempre gostou de ver um no outro. É bom, mas não o suficiente pra fazermos disso uma grande prioridade. É bom, mas não o suficiente pra fazer o coração bater mais forte. É bom. E sempre vai ser.

Mas no fundo você também sabe, a gente merece mais da vida. Fomos suficientes um ao outro pelo tempo necessário. As lições que aprendemos juntos e um com o outro serão, pra sempre, parte do que nos tornamos. Tudo o que passamos nos somou, e nos alavancou para lugares onde eu jamais imaginei estar; mas, sem querer, nos lançamos em direções distintas.

Eu preciso lhe pedir perdão pela franqueza, mas você me fez tão, mas tão bem, que eu não poderia lhe oferecer outra coisa senão minha mais pura honestidade, ainda que ela possa doer. Você me ajudou a descobrir quem sou, a descobrir tudo o que eu posso e quero pra mim mesma. E você desempenhou esse papel com tanto primor que eu deixei de caber no papel, nas expectativas.

Eu tentei dizer, isso você não há de negar. Tentei mostrar, também. Mas minhas tentativas não foram suficientes. Ou talvez eu é que não tenha sabido respeitar seu tempo, afinal, cada um tem o seu.

Esse é o momento de exercer a coragem que aprendemos a ter nos últimos anos. É o momento de deixar os quereres de lado, o medo, a insegurança. Se for pra ficar, que seja por amor, não por medo. Mas, nesse momento, o único modo de saber se queremos ficar é indo e se deixando ir.

Caminhar nas direções que a vida nos propõe pode parecer assustador agora, mas nós vamos sobreviver. E quem sabe ela não nos surpreende e nosso reencontro não está marcado pra bem ali, virando à esquina? Esta não é uma carta de “adeus”, embora eu também não saiba se é um “até logo”. Talvez seja uma carta de “que nos permitamos ser felizes apesar de todo o medo, e quero, em quaisquer circunstâncias e apesar do tempo, lhe ver bem”.

São 50 primaveras comprimidas num pacote de 21, tudo muito intenso. Dizem que eu penso demais, e se realmente soubessem, continuariam dizendo. Escrevo com o coração, para organizar as ideias e os sentimentos. Vez sim e outra também com a pretensão de tocar o coração de alguém. Uso a arte como forma de sublimar as dores da alma, por isso acredito que a dor deva ser sentida. Muito embora eu ainda esteja aprendendo a parar de evitá-la. Acredito no poder dos pequenos impactos, e no divino que nos conecta para grandes reverberações. Uma manifestação do Amor.
Mãe de Adolescente

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