Boatos e linchamento virtual: cuidado com o que você compartilha

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Mãe de Adolescente

“Vamos compartilhar isso até encontrar esse desgraçado”

Já parou pra pensar que talvez aquela pessoa ali na foto, sendo acusada das maiores atrocidades, possa na verdade não ser nada daquilo que a mensagem está dizendo? Pois devia.

Todo mundo sabe muito bem que qualquer um pode escrever um post em qualquer rede social sobre qualquer coisa, fazendo acusações com uma foto pública de qualquer um (de nós). Pode ser um ato extremo de vingança, uma piada de péssimo gosto. Ou pode ser um hoax.

O que é um hoax?

O termo hoax em inglês significa embuste, trote ou farsa. É usado para designar falsas notícias que circulam pela internet e que atualmente ganharam força no Facebook, os formatos são muitos, mas os mais comuns são os que denunciam um crime ou atrocidade que muitas vezes nem aconteceram. O hoax tem por objetivo propagar boatos pela internet de forma que a informação distorcida ou mentirosa chegue ao maior número possível de indivíduos. Normalmente trata-se de uma notícia de teor bastante duvidoso e uma vez que a sua comprovação é praticamente impossível, opiniões ou argumentos inconsistentes costumam ser adicionados à notícia conforme esta se espalha em uma tentativa de validá-la, gerando assim mais especulação, barulho e aumentando então o potencial de hoax com base na ignorância daqueles que compartilham.

Para não espalhar notícias falsas por aí, fique atento.

Desconfie, pesquise e cheque a informação:

Muitas dessas publicações mentirosas contam com a nossa revolta, indignação, com nosso medo da violência e principalmente com a nossa curiosidade. Ao se deparar com uma atrocidade que pede compartilhamentos, controle sua curiosidade e antes de clicar pense: “Se esse vídeo/notícia/fato é verdadeiro, por que nenhum portal de notícias relevante falou sobre isso?” Pesquise, procure informações e desconfie. Parece óbvio mas, não acredite em algo só porque está no Facebook.

Proteja-se e denuncie:

Na maioria das vezes um hoax é só uma história mentirosa, mas muitos sites e vídeos podem esconder ameaças a sua segurança então é melhor se prevenir. Instale um antivírus e mais importante – deixe de seguir páginas que compartilham conteúdos duvidosos e mentirosos, avise amigos e denuncie a publicação sempre que se deparar com um hoax. Denunciar conteúdos impróprios é a melhor maneira de tornar as redes sociais um lugar melhor para todos os usuários, portanto denuncie.

Cuidado com o linchamento virtual: 

Virou rotina na internet vermos (e muitas vezes até contribuirmos) para que pessoas normais tenham suas vidas destroçadas por publicarem uma piada mal escrita ou por serem alvos de um boato online. O linchamento virtual se baseia, entre outras coisas, na vergonha, na exposição pública de alguém que tem (ou supostamente tem) um comportamento reprovável na nossa sociedade. A vergonha tem sido usada ao longo da história como ferramenta de controle social em punições que no passado determinavam o açoitamento público ou apedrejamento de um indivíduo cujas atitudes não se enquadravam em um determinado grupo de regras sociais. Mas hoje em dia o que vemos é que com a internet todos parecem ter uma quantidade infinita de pedras para atirar.

O maior problema da internet é que ela impede que coisas ditas sejam esquecidas, e permite assim que informações sejam reproduzidas infinitamente, colocando as vítimas de linchamento em um looping eterno de humilhação e vergonha. E muitas vezes, o linchamento virtual baseado em um hoax, tem consequências reais e bastante perturbadoras.

“[No início, nos linchamentos virtuais] era como se as hierarquias estivessem sendo desmontadas, como se a justiça se tornasse democrática. Com o tempo, entretanto, essas campanhas [de linchamento virtual]se multiplicaram e passaram a visar não só instituições e figuras públicas mais poderosas, mas qualquer um que desse a impressão de ter feito alguma coisa ofensiva. Comecei também a refletir sobre o desequilíbrio entre a gravidade do crime e a inclemência do castigo.” Afirma Jon Ronson escritor e autor do livro “So You’ve Been Publicly Shamed”, em artigo para a revista Piauí.

Em maio de 2014, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, morreu após ter sido espancada por dezenas de moradores de Guarujá, no litoral de São Paulo. Ela foi agredida, espancada e assassinada brutalmente por causa de um boato publicado em uma página que afirmava que a dona de casa sequestrava crianças para utilizá-las em rituais de magia negra. Ela voltava do supermercado e caminhava para casa quando foi arrastada por um grupo de pessoas até uma vala.

O gari Joel Messias da Silva Mota, de 45 anos, foi assassinado a pauladas e pedradas em um terreno baldio em Agosto desse ano, tudo por causa de um boato publicado na internet afirmando que Joel estaria fazendo gestos obscenos para crianças da região. O post foi publicado por um adolescente que supostamente estava com raiva do gari devido a uma discussão. Ele foi arrastado de dentro de sua própria casa.

O serralheiro Carlos Luiz Batista, de 39 anos, tem medo de sair de casa porque depois que uma foto sua viralizou na internet com a informação de que ele seria estuprador e sequestrador de crianças, ele e sua família não param de receber ameaças. As mensagens começaram a circular em grupos de WhatsApp e depois foram compartilhadas também no Facebook em Outubro desse ano.

As histórias não param por aí. Muitos casos de vidas destroçadas por boatos nem sequer vão a público. Muitas pessoas, tomadas pela vergonha e pelo medo, se escondem enquanto tentam desesperadamente fugir da internet e reconstruir suas vidas após uma tragédia virtual. Isso, é claro, sem mencionar os casos de fotos íntimas, informações pessoais vazadas e casos de “slut-shaming”.

“Nessas redes sociais a gente é muito duro com o erro dos outros e pouquíssimo com o nosso. Se a gente invertesse isso, sabendo que todo mundo erra, seria muito mais simples pra todo mundo. Hoje eu penso duas vezes antes de criticar alguém.”  Comentou a jornalista Milly Lacombe em uma entrevista à revista Trip, sobre um episódio em que foi humilhada publicamente por um erro factual em 2006.

Jon Ronson acredita que “Nós nos achamos inconformistas, mas acho que isso tudo está criando uma era mais conformista e conservadora. Nós estamos definindo os limites da normalidade por destruir as pessoas fora dela”. O linchamento virtual, a criação de boatos, a exposição da intimidade de alguém são hoje alguns dos maiores perigos que a internet traz. É preciso cuidado, com a própria privacidade e com o tipo de mensagem que você compartilha. Coloque-se sempre no lugar da vítima e pense que somos todos humanos, falhamos e erramos. Seu post pode sim ferir alguém intensamente e até prejudicar a vida de uma pessoa de formas que você nem imagina.

Pense sempre nas consequências antes de postar no Facebook.

Social media, publicitária, jogadora, leitora, apaixonada por cachorros, séries, vinhos, piratas e dragões. Host do Hitbox News Update e Community Ambassador na @hitboxlive, @hitboxlivebr e @hitboxliveLA. Quer saber mais? Me segue no Twitter: @NinaLoneWolf.

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