Quando a ausência é o melhor presente…

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Eu, apesar de sempre ter tido muita sorte com meus amores, tive lá meus dias ruins, mas nada chega perto do que já vi e ouvi de amigas.

Já peguei carona com 4 homens desconhecidos no carro e nenhum deles me tocou. Já briguei com homem na balada ao vê-lo encurralando outra garota e ele sequer me olhou nos olhos. Já tive namorados briguentos, mandões, mas que jamais me tocaram.

O mais próximo de agressivo que já tive, gritava por 5 minutos e bastava eu fingir que não ouvia, logo ele percebia e se continha. Aos poucos, ele perdeu a mania de gritar e se mostrou um grande parceiro. Tanto que foi meu herói e deu a vida para me salvar.

Mas esse texto não é sobre mim. É sobre tantas outras mulheres que não tiveram essa mesma sorte que eu. Que não deveria ser sorte, na verdade, mas deveria ser o padrão correto das coisas. No entanto, sabemos que não é o que ocorre.

ausênciaEm meio a tantos relatos, o que me preocupa não são as mulheres que gritam, são as que ainda se calam diante de seus medos. As que são silenciadas até mesmo por nós mulheres, muitas vezes, mas especialmente por homens.

São mulheres que só sentem alívio em uma hora: a hora da ausência. Quando seus algozes estão trabalhando, bebendo ou até mesmo traindo-as. É a única hora que elas não sentem medo, não são oprimidas, não sofrem, não apanham.

Tantas mulheres que se sentem agraciadas com um mísero segundo de alívio, só do cara ir até o banheiro, porque elas não tem para onde correr.

Se recorrem à família, ouvem o famigerado “Pare de reclamar. Ele pelo menos não deixa faltar nada em casa”. Se recorrem a amigas, ouvem: “Ah, mas aqui em casa não posso te acolher. Meu marido não vai aceitar”. Se recorrem à polícia, o cara recebe uma autuação e, pasmem, continua lá morando com ela e agindo da mesma forma, só que agora pior, com mais ameaças ainda, porque se acha injustiçado pela denúncia dela.

“Ah, mas apanha porque quer!”. Cara, conheço meia dúzia que gosta mesmo e é safada. Verdade! Mas essa meia dúzia não reflete a maioria. Não mesmo!

Basta pensar em quantas mulheres só estão casadas por não terem para onde ir ou para que os filhos não percam o pouco de conforto e zelo que possuem ou até por medo de serem perseguidas e mortas?

Quando Luciano, meu marido, foi assassinado, uma das primeiras coisas que pensei, foi: “Tantos maridos lixo, inúteis e escrotos que seria um alívio morrerem num assalto e o cara mata um excelente marido e pai”. E eu pensei no conforto da ausência que essas mulheres tem e que eu não tinha, porque não precisava. E em como seria providencial matar um desses no lugar do Luciano, que era tão bom…

Lembrei da mãe da minha amiga, Nata, que era tão esforçada e trabalhadeira e ao chegar em casa, tinha que aturar o marido bêbado e agressivo por nada. Em quantas vezes fomos felizes quando ele não estava em casa: ela ria, nos servia bolo, contava histórias. Confessava, encabulada, suas aprontações de menina. Nada demais, mas que já as fazia ruborizar. E aí, quando chegava perto do horário do marido chegar, ela ia mudando o semblante, ficando melancólica, triste e era nítido ali que ela vivia do alívio da ausência.

Ali, não se tratava mais de uma questão do cara ser mais presente ou melhor. Se tratava, como em muitos casos (muitos mesmo) de uma necessidade de que ele apenas deixasse a cena, sumisse. Não havia mais conserto, nem remédios, mas ela não tinha para onde ir, então ia ficando, ficando, ficando…

Ela foi ficando e envelhecendo e perdendo aquele brilho que suas bochechas tinham quando ela sorria tímida, até que deixou de acreditar que podia se safar dessa e, para ela, já era tarde demais.

Eu não vi minha mãe viver isso, porque meu pai — salvos raros momentos na vida em que ele se excedeu e eu contaria nos dedos de uma mão — sempre foi calmo até demais. Resiliente, dócil, pacífico. Minha mãe também não deixava barato! Ela queria, ela fazia. Tanto que fazia até quando não podia, a exemplo de comprar milhares de pares de sapato sem termos dinheiro para isso…rs

Eu tive, mais uma vez, a sorte de pais com uma relação saudável, apesar de seus pesares. Jamais vi meu pai levantar a mão pra minha mãe. A voz, umas duas vezes, mas foi em tom de bronca: “Chega, acabou essa discussão!”, nunca em tom de ofensa. E minha mãe, idem. Eles nunca se agrediam. Discutiam coisas, assuntos, mas não um ao outro e só hoje percebo isso.

Minha mãe esperava ansiosa meu pai chegar. Ela se sentia feliz com meu pai em casa, com a família reunida. Minha mãe nunca sofreu de alívio de ausência, por isso eu achava que todo mundo era assim e a mãe da minha amiga era uma, em um milhão.

Aí cresci e fui vendo e ouvindo o mundo como adulta e percebi que isso é muito mais comum do que se podia imaginar. E eu não desejaria isso para ninguém. Porque deve ser horrível chegarmos ao ponto de desejar que as pessoas que tanto amamos fiquem longe para que possamos ser só um pouquinho feliz, né?

E se você por acaso é um homem escroto, não precisa mudar, já que sabemos que você é um lixo e gosta. Apenas suma. Suma para longe.

Estar ausente, no seu caso, é o melhor presente que se pode dar a alguém.

Romântica, mas de um jeito nada romântico. Escrever é como construir uma colcha de retalhos: vou juntando pedaços de histórias, sentimentos e pensamentos meus, seus, de outras pessoas. E a cada vez que você me lê, me cita e me compartilha, enche meu coração de alegria e mostra para alguém um pouco mais de você, de mim e, claro, dela mesma.

Amo escrever, mas amo mais ainda ser lida. ♥

Mãe de Adolescente

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