Reflexão: Por que a aparência importa tanto?

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Afinal, por que a aparência importa tanto?

Entro em uma loja e começo a olhar os vestidos. Ignorada pelas vendedoras, tenho liberdade de julgar em silêncio os diferentes tecidos, cortes, preços. Minutos depois uma bela mulher beirando seus quarenta anos entra, saltitante. Todas sorriem, oferecem café, desejam mostrar a nova coleção, indagam sobre a família. Em um canto observo tudo segurando um sorriso de ironia e vivacidade. Isolada entre as araras como se fosse uma maldita leprosa, eu mal posso conter a vontade de rir.

A razão? Meu All Star com certeza não ganha daquele scarpin. 😉

Depois de passar a vida morando no interior do Rio de Janeiro, eu fui embora. E agora voltei. Mas que mudança de merda eu fiz! É impressionante a nossa capacidade de se adaptar aquilo que nos convém e eu simplesmente não sou capaz de me adaptar a certas coisas típicas do interior. Como essa vida de aparências. Essa necessidade de carro, luxo, de pertences caros e atualizados que são meticulosamente exibidos em uma espécie de estranha e silenciosa competição pelas ruas da cidade.

Eu não quero competir mas é como se me empurrassem para a corrida. Como se me obrigassem a aceitar o posto de perdedora porque nasci em um bairro pobre, porque minha mãe é professora, porque eu não tenho um casamento vantajoso, ou filhos intragáveis correndo pela praça, ou um belo carrão. Bom… eu não tenho nada disso mesmo. E ainda bem! Tenho trabalho, uma carreira fora daqui, tenho uma vida de incontáveis experiências, de laços fortes de amizade que até hoje me mantém presa a um simplório fio de sanidade, tenho aprendizado e acima de tudo: autenticidade e noção de quem eu sou.

Ainda assustada pela acirrada concorrência pelo posto de “bem sucedida” de tempos em tempos eu ando por aí. Vejo nos rostos de homens e mulheres que perderam a juventude em uma desesperada peleja para conquistar tudo antes que o tempo os alcançasse. Vejo nos filhos mal educados o reflexo de uma vida displicente e sem profundidade na qual o que realmente importava (e ainda importa) é o quanto você tem a mais. Vejo no desespero por roupas, sapatos, viagens e posts alegres no Facebook um buraco, um vazio negro e tenebroso que essa gente carrega no peito, um vazio que suga, grita e pede diariamente para ser preenchido com mais… mais… mais…

Tenho aqui pra mim, quase que em segredo, que a culpa é da normalização do que é considerado sucesso e felicidade, do casamento, dos filhos, da casa perfeita. A escola acaba e o que vem? Perspectiva. Falta visão de que existe vida além do que todos os seus amigos estão fazendo. Falta visão de que o normal não é normal para todos, que você tem escolha e pode ser e fazer diferente. Falta questionamento, auto crítica. “É isso mesmo que eu quero pra mim?” Essa é uma pergunta que as pessoas deveriam se fazer todos os dias.

aparencia-importaMas a resposta para essa pergunta pode ser dura. Pode ser “não”.

Viver no interior é deprimente. Aqui chamam a cidade de “empreendedora” mas ainda vemos as mesmas famílias dominarem o comércio, a indústria, o setor imobiliário. Tudo nas mãos dos mesmos de sempre. Vemos um tradicionalismo ridículo condenando tudo que é diferente. Uma condenação intensa porém discreta aos que, de alguma forma, ascenderam, adquiriram conhecimento ou que conseguiram longe daqui qualquer forma de sucesso. Aqui, o empreendedor é aquele que herda o negócio do pai e que não precisa, nem por um minuto, decidir o que fazer da vida. Ele já ganhou a vida de presente.

A cidade então grita “como ousa?!” Você? Que não é casada nem tem filhos, você que não tem casa na praia e cujos pais não são ninguém, como ousa você ser feliz? Como ousa saber mais do que eu que tenho tudo?

Pois bem. Ousando.

Quando você olha além, quando amplia seus horizontes, muita coisa deixa de ser importante. Quando se tem objetivos maiores, objetivos que mesmo não sendo tradicionais ou comuns, te fazem verdadeiramente feliz, a aceitação do outro se transforma em algo tão insignificante, que o mero pensamento de precisar disso, chega a ser irritante.

Muitos devem ser os rejeitados como eu. Que andam por aí em silêncio, sem luxo, sem ouro, sem reverência nas lojinhas, nos bares e restaurantes. Sem serem reconhecidos, levando uma vida de verdade, sem a necessidade de mostrar ao mundo o quanto tem. Mas nós somos difíceis de achar. Nós rejeitados somos como ratos. Temos nossos castelos no subsolo da sociedade luxuosa, rastejamos alegremente naquilo que os ricos rechaçam: no conhecimento, na razão, na busca por um significado para a nossa existência que vá além do consumismo.

Ah e não espere ser entendido – a compreensão exige o uso assíduo do pensamento e isso, meus amigos, poucos são os que fazem. Aceite seu posto de rejeitado e perdedor. Caminhe em silêncio por entre a sonoridade da ostentação luxuosa, em meio a barulhenta e brilhante felicidade falsa, que grita histericamente de olhos arregalados o quanto tudo está bem. Não faça alarde, porque é no nosso silêncio, na nossa quietude, na nossa felicidade vivida e não falada que repousa a nossa paz, que fundamenta-se quem nós somos e nós, os ratos, sabemos que não há fortuna, beleza ou ardor que compre o nosso sossego.

Há, você sabe, uma imensa vantagem em não ser alguém, pois mesmo que haja cobrança, não há a expectativa de sucesso e com isso, você pode fazer o que quiser e ser quem quiser pois ninguém espera que você, um rato, seja ou faça qualquer coisa direito.

Pois em verdade vos digo: toquem o foda-se. Sejam nada. Sejam ninguém. Sejam a leprosa rejeitada nas araras com um sorriso irônico e vivaz. Ser a ricaça de scarpin deve ser muito difícil, pensem bem! Pobre coitada, naqueles sapatos apertados, tendo que fingir ser tão feliz…

Social media, publicitária, jogadora, leitora, apaixonada por cachorros, séries, vinhos, piratas e dragões. Host do Hitbox News Update e Community Ambassador na @hitboxlive, @hitboxlivebr e @hitboxliveLA. Quer saber mais? Me segue no Twitter: @NinaLoneWolf.
Mãe de Adolescente

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