Sobre pessoas cruéis

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Pessoas cruéis muitas vezes não tem a menor ideia de como o que elas fazem, dizem ou insinuam possa atingir os outros. Ou tem.

Sábado tive (mais) uma experiência bizarra e esta experiência me lembrou alguém que já não está mais entre nós, mas que era vítima constante da crueldade destas mesmas pessoas que me proporcionaram (mais) esta experiência bizarra.

E me lembrei na hora de quantas vezes esse cara que hoje não está mais entre nós justamente por ter sido o que eles jamais serão: um homem generoso faria qualquer coisa por outra pessoa sem exitar, a quem vamos chamar de X.

Tantas vezes X. chorou ao descrever seus esforços em impressionar um cara, a quem vamos chamar de B. Um cara mais velho, a quem ele considerava importante, mas que jamais lhe deu chance de mostrar qualquer qualidade e que jamais se esforçou verdadeiramente para reconhecer algum feito dele.

B. aparentemente é um cara legal, de bem, porém nunca se deu conta de como era importante para X. sentir-se parte de algo que B. também fizesse e de um, ainda que mero e rápido, reconhecimento de seus feitos.

X. passou a vida tentando se encaixar, mas era uma luta perdida desde sempre: quando B. se reunia com primos e/ou amigos, X. dificilmente era convidado e, quando era, sempre virava motivo de chacota velada entre eles.

pessoas crueis

E X. ficava arrasado, mas não conseguia demonstrar isso, pois era orgulhoso. Aliás, quem não seria, ao ser humilhado constantemente, né? Acaba virando um hábito viver na defensiva. E isso acabava prejudicando-o em todos os círculos em que ele tinha que conviver se sentindo apenas a “mera sombra mal feita de B.”.

Talvez eu tenha sido a pessoa que melhor conheceu X. e a única que realmente soubesse como ele se sentia diante destas situações, mas também como ele era um cara divertido, sonhador, esforçado, dedicado, leal e de como os que nunca se permitiram conhecê-lo perderam com sua partida. E seria ok lidar com isso, mas me dá uma dor no fundo da alma cada vez que penso em como ele vivia tentando impressionar pessoas, especialmente B., que não apenas nunca lhe deram uma chance, como também ainda o transformaram em alvo fácil para suas chacotas cruéis e más.

Me lembro de quando nos conhecemos e, em uma de nossas primeiras conversas, ele falando de B., de como era eloquente, inteligente e como sua mãe tinha orgulho dele e de como X. queria um dia poder dar o mesmo orgulho para a mãe também. Em seguida, seu olhar foi ficando mais triste e ele foi me contando de como sempre fazia de tudo para ser próximo de B., no entanto, sempre se sentia ainda mais excluído quando era convidado do que quando era simplesmente deixado de lado.

Dias antes dele partir, tivemos uma reunião onde várias pessoas, incluindo B. estavam. Lá, havia uma espécie de assunto em segredo em que em algum momento alguém tocou e toda aquela felicidade que X. estava sentindo por finalmente fazer parte de algo, acabou. Ele foi embora dirigindo cabisbaixo, quase choroso e chateado por não ter sido convidado a um evento em que todos os demais haviam sido, menos ele.

E por que me lembrei disso? Porque no último sábado encontrei B. e seus “amigos” num evento. E os peguei fazendo comigo o que faziam com X.: transformando-me em motivo de chacota. E aí percebi que mesmo que se passem anos, essas pessoas jamais serão amigáveis. Apenas sociáveis. E me lembrei porque X. tanto queria manter-se distante depois de certo tempo, e estar cercado por pessoas que realmente viam nele quem ele queria tanto que vissem: alguém divertido, generoso, amoroso, leal. E X. finalmente encontrou pessoas que o faziam sentir mais do que aceito. Que o faziam sentir-se parte, como membro da família mesmo, convidado de honra, a quem todos queriam ter por perto e que fosse para sempre lembrado.

E assim ele é, por estes amigos. Diferente de B. que hoje jamais toca em seu nome, assim como os que o cercam, como ele jamais tivesse existido. E tudo o que vem dele ou por ele mereça ser deixado de lado, colocado em segundo plano. E isso inclui uma criança que é nitidamente tratada diferente das outras com o mesmo grau de parentesco, mas que agora saberá que não precisa impressiona-los e nem mesmo precisa deles.

E naquele sábado me senti exatamente como ele descrevia e não é nada bom. Nenhum pouco. E entendo tantas vezes que ele chorou, esbravejou, reagiu de forma intempestiva e até demonstrou raiva. Se eu, vez ou outra passando por isso já me sinto tão mal, imagine ele que viveu assim todo tempo e morreu precocemente, sem ter como dizer o que eles mereciam ouvir ao menos uma vez?

O que posso dizer? Que identifiquemos os “B.s” de nossas vidas e nos afastemos deles o quanto antes e o quanto mais longe. E que nos esforcemos para nunca, mesmo que sem perceber, sejamos o B. na vida de alguém.

Romântica, mas de um jeito nada romântico. Escrever é como construir uma colcha de retalhos: vou juntando pedaços de histórias, sentimentos e pensamentos meus, seus, de outras pessoas. E a cada vez que você me lê, me cita e me compartilha, enche meu coração de alegria e mostra para alguém um pouco mais de você, de mim e, claro, dela mesma.

Amo escrever, mas amo mais ainda ser lida. ♥

Mãe de Adolescente

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