Viuvez: a dor da perda recheada de egoísmo alheio

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Sempre evitei falar desse assunto, porque é mexer em uma ferida ainda aberta para mim.

Por mais que eu tenha tido apoio da maioria das pessoas, sejam amigos, família e até mesmo da família do meu falecido esposo, Luciano, sempre tive que lidar com aquelas situações chatas e constrangedoras.

Durante algum tempo eu até tentei entender o lado dessas pessoas em se sentirem ofendidas pela forma como eu conduzi minha superação diante da perda, até que parei para pensar melhor e não fazia o menor sentido eu entendê-los, porque nenhum deles sabia nada sobre mim, sobre como era minha vida de casada, sobre como me senti quando ele morreu, sobre o que eu senti depois e o que precisei enfrentar dentro de mim mesma, dia após dia, para superar essa dor.

Em sete anos de viuvez posso contar nos dedos as pessoas que me perguntaram como eu me sentia, mas já perdi as contas de quantas me apontaram o dedo para dizer como eu deveria me sentir e/ou agir.

O mais engraçado é que se isso viesse, por exemplo, da mãe do falecido que é, ao meu ver, a única pessoa que sentiu dor igual ou maior que a minha, tudo bem. Mas ao contrário, ela foi um dos meus grandes alicerces depois que perdi Luciano. Ela foi uma das únicas pessoas, além dos meus amigos e da família, que partilhou comigo de momentos de choro sem me vetar, de lembranças sem me privar e, acima de tudo, que jamais me questionou ou apontou por estar seguindo a vida, tentando encontrar um jeito meu de lidar com a dor e com todo o resto de vida que eu ainda tinha pela frente.

Mas isso não é comum. Na verdade, eu dei muita sorte por ela ser essa mulher generosa que é, porque milhares de outras mulheres e homens que ficam viúvos enfrentam o descomunal egoísmo e falta de humanidade das outras pessoas que acham que a viuvez é uma sentença de perpetuação da dor.

É quase que ter que pagar por um crime que não se cometeu, porque as pessoas realmente acham que devemos satisfações à elas, que elas tem direito de nos cobrar como devemos nos portar, nos sentir, quando, onde, por quem. Se trancam dentro de suas cascas de escrotismo para ficarem de longe palpitando e destruindo nossas poucas chances de superarmos a dor, por puro sadismo.

viuvez

A morte, a perda, a dor

As pessoas acham que sabem o que sentimos quando ficamos viúvas. Elas pegam as dores de unha encravada delas, imaginam essa dor multiplicada por 4 e pensam: “Ah, é assim que ela se sente. Vou ali dar um abraço e falar umas groselhas pra ela se sentir melhor”.

Em primeiro lugar, não há abraço que baste! Não há, porque o único abraço que bastaria para todas as suas dores, é daquela pessoa que morreu. Então, não. Você não faz e nunca fará ideia do que a viúva sente, mesmo que você tenha a melhor das intenções e a maior empatia do mundo.

A morte da pessoa, em si, é a última coisa que damos conta. A atmosfera de todo o momento, de pensar numa vida que se foi e nos planos que jamais se consolidarão já é foda. Mas a dor, essa não tem como mensurar, desenhar ou explicar. É dilacerante.

E não venha começar com conjecturas doentias de suas mente boçal, tipo “Nossa, ela sorriu ao olhar pro caixão. Não deve nem ligar pra ele morto. Deve estar feliz”. Cara, preste atenção: Durante o luto, a gente sente dor incessante, mas consegue ter alívios momentâneos com lembranças ternas, meigas, carinhosas e engraçadas da pessoa. E não é porque não se vê lágrimas que não há dor.

 

Os pêsames

Claro que cada um lida com a dor ao seu modo. Eu, por exemplo, queria ficar sozinha, sem ouvir nem responder ninguém, só no meu quarto. Na verdade, eu queria mesmo era gritar. Gritar muito alto. Queria sair gritando até Deus me ouvir e desfazer essa injustiça que foi a morte do Luciano.

Esse foi meu jeito de lidar, mas tem quem fique serena, quem queira estar com todo mundo, quem poste fotos nas redes sociais, quem queira fazer discurso.

Seja como for, a dor é da pessoa, não sua. É o momento dela, não seu. E a você cabe respeitar e parar de viver em torno do seu umbigo achando que só seu jeito é certo e que só você sabe como o mundo todo deve agir em caso de viuvez.

 

Os dias seguintes

Eu não queria comer, beber água, tomar banho, nem sair da cama nos dias seguintes. São os piores dias.

É neles que vem a dor latente, a consciência da falta real e permanente, as dúvidas, medos, as questões burocráticas e, pior, os ditadores de regras de como você deve se comportar, de quanto tempo tem que ficar reclusa, usando preto, sem encontrar alguém, etc.

Olhando hoje, eu não sofri tanto com esses seres abomináveis porque meu pai foi incrível em me defender, mas ao pensar no que ele viveu quando minha mãe morreu, me parte o coração.

 

Os fiscais do luto alheio

Gente da família, amigos, que deveriam estar torcendo pra que ele superasse a dor o quanto antes, ainda mais ele que viveu dois anos vendo minha mãe sofrer e padecer do câncer antes de morrer, estavam justamente se colocando na posição de juízes, de donos de todas as regras de como ele deveria se sentir, agir.

Ainda bem que meus irmãos e eu nos colocamos como fieis escudeiros dele e dos direitos dele de lidar com a dor à sua maneira, em seu próprio tempo, doesse a quem doesse, porque para nós, o importante era ele. O resto, que se foda!

Meu pai começou a namorar 3 meses depois que minha mãe morreu e muitos parentes e amigos trataram de detona-lo, de falarem coisas horrendas para ele, como se ele não tivesse o direito de seguir a vida ou tivesse que prestar contas de quanto tempo deveria guardar antes de recomeçar.

Mas ninguém considerou o tempo que ele viveu a angústia diária de acordar e poder encontrar a esposa morta ao seu lado, por exemplo. Ninguém pensou que há 3 anos meu pai só vivia em prol e para minha mãe e sua doença e que daquela hora para a frente ele poderia se dar o direito de pensar em si.

 

A crueldade disfarçada de moral

As pessoas vestem uma capa de moral para serem imorais com os sentimentos alheios. Em nenhum momento estão preocupadas de verdade com o que os viúvos e viúvas sentem e/ou precisam.

Como exemplo, cito um “amigo” do meu falecido que se dispôs a me ajudar a cuidar da empresa, já que eu não manjava nada da parte técnica de impressoras.

Esse fulano, em menos de dois meses, havia roubado todos os clientes que tínhamos. Não se importou comigo, muito menos com a Gigi – que tinha 5 anos na época – nem se teríamos como comer ou viver. Mas vivia pregando passagens bíblicas e me limitando de pensar em namorar antes de 1 ano de luto, por exemplo.

Quer dizer: tudo bem o cara me roubar. Contanto que eu não namorasse antes de 1 ano, a memória do Luciano estaria preservada.

 

O egoísmo, o sadismo e boçalidade humana

Conheço viúvas jovens, que enviuvaram cedo e já há algum tempo, anos e anos, muitas vezes, mas a família, tanto dela como do cara, e os amigos acham que ela não tem direito de viver, de sair, de amar e ser amada de novo.

Eles a sentenciam silenciosamente a viver enfurnada, revirando a dor todo santo dia, sem poderem buscar um alívio para isso, por puro egoísmo e boçalidade deles. Eles não ganham nada com isso, a não ser o prazer macabro de ver aquela pessoa refém de uma condição que ela não planejou, não escolheu, não gostaria, mas que aconteceu.

Seria o mesmo que pedir para alguém que sofreu um acidente e hoje não anda, mas com alguma fisioterapia e tratamento, poderia voltar a andar, que ela ficasse sem fazer a fisio e os tratamentos, para se manter sempre na cadeira de rodas, precisando deles pra ser empurrada, sem ter muita mobilidade além dos olhos e do alcance deles, para que eles nunca deixem de controla-la por puro sadismo.

 

A eterna falta e a eterna dor

A perda de um conjugue sempre doerá. Vira e mexe, dá aquela saudade, aquele aperto, aquela falta. E, em casos como o do Luciano, aquela sensação de injustiça, indignação. Nunca passa.

Dá para aprender a lidar com esses momentos mais latentes, dá para falar disso com mais facilidade, dá para mesclar com lembranças boas. Mas ainda dói.

E a falta, ela é eterna, diária. Ela nunca passa. Mesmo que tenhamos outra pessoa, nunca passa.

Todo santo dia me lembro do Luciano, de como ele era vivaz, estrondoso e de como aquela efusividade dele faz falta. O sorriso dele, a risada dele, eu ainda ouço.

A forma como ele falava da Gigi e a forma como ele falou da mãe e da tia um dia antes de falecer. As 300 ligações por dia que ele me fazia, os sonhos e planos dele, a forma como ele se espelhava no irmão mais velho, a amizade dele pelo meu pai e irmãos, a ligação que ele tinha com o Alisson e com meus tios e tias, o orgulho que ele tinha dos tios dele…

Tudo isso eu lembro TODO SANTO DIA. Ao dormir e ao acordar. E quem me conhece sabe disso, porque eu nunca me privei de falar dele, porque tudo me lembra ele.

 

Amar outra vez

Eu apenas aprendi a amar mais alguém sem deixar de ama-lo. Aprendi a viver com essa dor e todo esse amor do meu jeito. Me permiti porque tive essa chance dada por aqueles que estavam comigo, que me respeitaram.

Coisa que muitas viúvas e viúvos não poderão jamais, porque o universo de gente querendo fazê-los viver mergulhados na dor, como se tivessem culpa pelo que perderam, é enorme.

Com esse texto eu espero, de coração, fazê-los repensar em como tratam seus viúvos e viúvas e pensem que um dia pode ser qualquer um de vocês nesse papel que ninguém planeja ao escolher um amor. E que quando acontece já é, por si, um poço de dor. Não precisa ninguém tapar a boca do poço, mas precisa de muitos ajudando-nos, puxando a corda para sairmos.

Não se preocupem, porque amar outra pessoa não desfaz as memórias nem a história de quem esteve conosco. Nós só aprendemos um novo jeito de partilhar e de lidar com tudo isso.

A história do Luciano eu contei AQUI, caso você queira saber como ele se foi.

Romântica, mas de um jeito nada romântico. Escrever é como construir uma colcha de retalhos: vou juntando pedaços de histórias, sentimentos e pensamentos meus, seus, de outras pessoas. E a cada vez que você me lê, me cita e me compartilha, enche meu coração de alegria e mostra para alguém um pouco mais de você, de mim e, claro, dela mesma.

Amo escrever, mas amo mais ainda ser lida. ♥

Mãe de Adolescente

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