A morte de um pai, um herói chamado Luciano, que morreu para me salvar.

Luciano L. ✫ 08/05/1979 – † 14/01/2009

morte de um pai

Luciano brincando com Gigi (novembro/2008)

Eu vivi uma tragédia: o homem que eu amava, pai da minha filha de então 5 anos, foi morto por um bandido ao tentar me salvar de ser a vítima.

Um pouco do antes:

Tivemos um grande revés em nossas vidas e decidimos nos mudar de São Paulo para Suzano, onde minha família mora, para começar uma nova fase na vida.

Saímos de um apartamento de 50 m² para morar em uma enorme casa com jaboticabeiras onde finalmente pudemos ter cachorro, o Thor, churrasqueira, conforto e tudo o que não tínhamos na capital — pagando o mesmo valor de aluguel (e sem condomínio).

Luciano, que sempre foi muito efusivo, agora podia receber amigos sem ter que ficar pedindo para falarem mais baixo, fazer churrasco sempre que quisesse e ter a liberdade que nunca teve antes.

Luciano brincando com Gigi (novembro/2008)

Pai presente, apesar de ter acompanhado a filha apenas até os 5 anos, marcou a vida dela com seus ensinamentos, com sua efetiva parceria

Abrimos um escritório comercial próximo de casa, de onde operávamos a empresa. Uma ou duas vezes por semana, Luciano fazia visitas aos clientes, geralmente terças e quartas-feiras.

Aqui, narro o dia fatídico em que Luciano foi assassinado:

Luciano estava especialmente feliz naquele dia, pois iria fechar dois contratos novos. Me deixou no escritório e foi rumo aos clientes. Como de costume, nos falamos umas 20 vezes no decorrer do dia e não teve nenhuma anormalidade. Como ele ligou avisando que estava perto, já o esperei na porta do escritório.

Quando Luciano desceu do carro, me deu beijo demorado e, me levantando do chão — como sempre fazia só para me irritar — e me entregou um contrato recém assinado por um dos novos clientes, falando em tom de brincadeira: “Amor, guarde agora esse documento se não você vai perder”.

Entrei no escritório agachada, me esgueirando por debaixo da porta de elevação que estava apenas metade aberta. Rapidamente me livrei do documento e me agachei de novo, dessa vez para sair. Foi quando vi a cena:

Um rapaz empunhando um revólver apontado para Luciano, enquanto ele pedia calma de mãos para cima, dizendo que entregaria as chaves do carro.

Levantei no instinto, o que assustou o bandido, que apontando o revólver pra mim.

Foi aí que Luciano, ao me ver ameaçada, entrou em briga corporal com o rapaz dizendo que ele não faria nada comigo, tentando desarmá-lo: “Você não vai fazer nada com ela!”, puxando-o para longe, em direção ao meio da rua.

Foi quando ouvi disparos. Gritei repetidas vezes ‘pelo amor de Deus’ enquanto via sangue em ambos. Naquele momento, torci para que o sangue fosse do cara. Mas ouvi mais 3 disparos logo em seguida.

Luciano cambaleou enquanto eu corria até ele. Assim que cheguei, ele caiu no chão.

Deitei ao lado dele e pedi que ele ficasse calmo e, segurando sua mão, olhei dentro dos seus olhos. E ali, bem ali, eu o vi indo embora. Seus olhos ficaram vazios, as narinas roxas e bem abertas, o sangue vindo à boca e a respiração se esvaindo e a mão que segurava a minha forte, se afrouxando. Senti seu sangue quente me tocando e a sensação foi de querer morrer no lugar dele. Foi horrível e não há um só dia que eu não pense nisso, até hoje.

Ali, naquele asfalto, numa fina garoa, vi meu amor morrer. Luciano, jovem empresário, sonhador, pai da Gigi, marido amado, um poço de bom humor, morreu pelas mãos de um assaltante de carteirinha que, no fim, não levou nada.

Assim se deu a morte de um pai, um marido, um filho, um trabalhador…


Enlouqueci. Perdi o rumo das coisas, das pessoas, do mundo, da vida. Desmaiei, deixei de comer, deixei de dormir, cheguei até a pensar que eu é que havia morrido e que estava presa aqui nesse planeta.

Mas aos poucos minha família, meus amigos e a família do Luciano foram me dando rumo, me botando no prumo e eu fui ficando melhor.

São memórias duras, dolorosas, mas essa é a minha história de vida.

Não quero que sintam dó ou que me considerem heroína, porque não sou. Tanto que, se me fosse permitido escolher, jamais teria passado por nada disso.

Sobre o bandido que o matou: Rogério F., na época com 25 anos, estava foragido do indulto de Natal já que estava cumprindo pena por crime semelhante. Foi capturado e condenado a 23 anos e 4 meses de prisão por latrocínio duplamente qualificado, e cumpre pena em regime fechado.

Se eu o perdoei? Sim.

Não porque sou boa, mas porque precisava perdoar para ser capaz de me permitir viver o que a vida ainda poderia me proporcionar e para que eu pudesse fazer valer o esforço de Luciano em me salvar naquele dia 14 de janeiro de 2009.

Se eu me entregasse à depressão, seria como se ele tivesse morrido em vão.

Então hoje eu tenho obrigação de ser feliz 3 vezes: por mim, por nossa filha e, principalmente, por ele, que foi vetado de viver e ser feliz por si.

Hoje sou casada novamente com um cara também incrível e capaz de lidar de forma magistral com esse emaranhado de sentimentos que me tornei e de cuidar da Gigi, sempre com o zelo pela imagem paterna do Luciano.

Posso dizer-lhes que sou privilegiada por ter tido a sorte de ter companheiros tão incríveis, pena que em uma trajetória tão dolorosa e cheia de sacrifícios.

Mas o que mais gostaria que ficasse como lição, é que a vida é o agora, as saudades são eternas, mas não nos impedem de amar novamente.

Tudo de melhor…

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Romântica, mas de um jeito nada romântico. Escrever é como construir uma colcha de retalhos: vou juntando pedaços de histórias, sentimentos e pensamentos meus, seus, de outras pessoas. E a cada vez que você me lê, me cita e me compartilha, enche meu coração de alegria e mostra para alguém um pouco mais de você, de mim e, claro, dela mesma. Amo escrever, mas amo mais ainda ser lida. ♥