Eu tinha tanto medo de encarar a verdade e o desrespeito com que você me tratava que eu mesma justificava seus erros

Queria acreditar que um dia finalmente eu estaria livre desse medo e de todas as vezes que você sumiu por dois ou três dias e eu achava que você havia me deixado, me esquecido, me trocado.

Não fui capaz. Sua cara lavada dizendo “Calma, eu só precisava de um tempo pra mim, mas não estive com mais ninguém” nunca me convenceu. Mesmo assim, eu ainda respirava fundo e continuava ali, porque maior do que meu medo e minhas perturbações, sempre foi meu amor por você.

Eu chorava silenciosamente em meu quarto para ninguém perceber e quando finalmente estávamos juntos, eu sorria de felicidade, mas era uma felicidade doída, com medo de perguntar e ouvir respostas que desmoronariam de vez nosso castelo de areia.

Você me dizia que só existia a mim, me garantia que não haveria mais ninguém e eu, mesmo engolindo seco, achava lindo. “É coisa da minha cabeça”, eu pensava comigo até acreditar em você sem questionar.

Eu mesma justificava seus errosMinha mãe me via pelos cantos e entendia meu silêncio, tentava me dizer de forma sutil que não queria me ver assim, que achava que eu não merecia, mas antes que ela concluísse, eu já a cortava e saia, batendo pés, com raiva dela.

“Onde já se viu alguém falar um “A” de você?”, era o que eu pensava a cada tentativa de alguém me dizer algo, ainda que fosse apenas algo subliminar. Bastava eu perceber e eu já me indignava.

Só que dentro de mim eu sabia que as pessoas queriam meu bem e que elas estavam certas. E que a errada era eu em te manter no pedestal, quando você merecia estar na platéia assistindo meu triunfo com alguém bem melhor.

Tola. Era o que eu era. Mas me contentava com suas migalhas emocionais, com suas esmolas sentimentais.

Eu mesma justificava seus erros. Você nunca precisava explicá-los, pois eu já me antecipava em explicar por você.

Falei tantas vezes para mim mesma e para as pessoas coisas sobre você que nem eu mesma acreditava, mas que me confortavam de alguma forma.

Me perdi tanto de mim mesma que nem sabia mais o que era ser feliz. Para mim, felicidade era esse estado catatônico em que eu me mantinha, anestesiada das verdades, consumindo mentiras, até que finalmente o ciclo se rompeu.

Um belo dia, acordei decidida a não aceitar mais a condição que você me mantinha, cortei de vez e foi doloroso. Foi horrível ter que assumir que vivi inerte e incapaz de encarar isso por tanto tempo.

Ainda bem que tive apoio, ainda bem que tive forças, ainda bem que me livrei desse relacionamento que me corroía cada vez mais.

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Romântica, mas de um jeito nada romântico. Escrever é como construir uma colcha de retalhos: vou juntando pedaços de histórias, sentimentos e pensamentos meus, seus, de outras pessoas. E a cada vez que você me lê, me cita e me compartilha, enche meu coração de alegria e mostra para alguém um pouco mais de você, de mim e, claro, dela mesma. Amo escrever, mas amo mais ainda ser lida. ♥

1 comentário

  1. Relacionamento abusivo. Ainda pensamos que amar implica em dominar e controlar o outro.
    Parabéns Thati, como sempre continua prestando um serviço mt importante há muitos, sem saber, talvez…rs