Que na próxima, eu crie coragem, que na próxima você esteja lá, que na próxima tudo dê certo… Sempre “na próxima”…

 

Texto de Matheus Oliveira

Sabe, lembro-me a primeira vez que te vi. Era uma segunda-feira chuvosa. Poderia ter sido uma sexta-feira ensolarada, mas com um clima ameno. Um daqueles dias onde o sol brilha, mas não esquenta e o vento refresca, mas não gela. Se não era assim o dia, preferiria que fosse. E assim será então. Vamos começar de novo.

Era uma bela sexta-feira. Você entrou na sala ajeitando o cabelo e sorrindo. Ah, você sempre entrava da mesma forma. Sempre tão rodeada de gente e sempre tão sorridente. Eu, bem acompanhado pela minha solidão e voz interior, discuti comigo mesmo se você era falsa ou se era somente mais uma jovem adulta que não largou a adolescência. Afinal, que outro motivo existiria para rir daquele modo?

A primeira vez que conversei contigo, foi por mero acaso do universo. Entro no ônibus — o primeiro até chegar em casa — e, por falta de lugar para sentar, você sentou ao meu lado. Conversamos sobre coisas sem importância, quem éramos, o que gostávamos de fazer no tempo livre e algumas preferências.

Lá, naquela sala, você estava sempre rodeada de gente, o que me impediu de falar contigo ali. Porém, de segunda à sexta, nos falávamos no ônibus. Aos poucos fomos criando alguma forma de amizade, de vínculo. Ou melhor, eu fui criando, talvez você nem se importasse. Já tinha planejado descobrir, falar-lhe tudo que eu sentia por você.

Na segunda, você estava meio mal-humorada. Na terça, eu estava doente e não fui. Na quarta, eu que tinha acordado mal-humorado e assim se seguiu por alguns meses, onde quase todos os dias tinha uma boa razão para não falar nada. Alguns poucos dias não tinha razão alguma, tinha todas as oportunidades, mas seria isso um sinal de que seria uma tragédia? Para quem se acostuma com o fracasso, a possibilidade de sucesso é o pior dos medos.

na próxima

Finalmente, chegou um dia que, por alguma razão qualquer, nunca mais te vi no ônibus. Talvez tenha comprado aquela moto que você achava bonita, talvez tenha mudado de turno para não mais precisar acordar cedo, como você tanto disse que odiava. Nem prestei atenção se você continuava a ir pra sala ou não. Deixei pra lá e segui minha vida, um pouco triste é verdade, mas segui. Até ontem.

Ontem te vi de novo, no mesmo ônibus. Eu estava em pé no final do ônibus, você sentou num banco duplo, com o espaço do lado vazio, me esperando. Acho que você nem mesmo me viu. Fechei os olhos, lembrei de todo o discurso que eu treinei por meses a fio. Relembrei todas as réplicas e tréplicas – para o sim, para o não, para o talvez. Respirei fundo, pensei em tudo que eu sempre quis dizer.

Alguns minutos depois, cheguei ao meu ponto, desci do ônibus e fui em direção à minha casa. Talvez tivesse passado o tempo e você tivesse me esquecido, talvez você já estivesse namorando, aliás. Ou talvez, você dissesse sim. O que seria a pior das tragédias.

Você é uma pessoa muito legal, com certeza merece coisa melhor.

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Pragmático, cheio de senso analítico, mas com uma generosidade e compreensão incríveis.

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