Recebi este texto sobre relacionamento abusivo e a pessoa que me enviou pediu anonimato.

Este texto é um relato real de um relacionamento abusivo, não é meu e fiz algumas pouquíssimas revisões, pois além de muito bem escrito, fiz questão de manter a essência da escrita como ela chegou a mim.

Segue:

Sou uma mulher e, se eu falo através dele agora, é para me proteger. Este é um relato verídico. Aconteceu comigo e qualquer semelhança com a realidade NÃO É mera coincidência. Se você é meu amigo e reconheceu a história, por favor, ajude a manter minha identidade em sigilo.

Eu fui vítima de um relacionamento abusivo durante (quase) sete longos anos e, mesmo estando livre disso há mais de dois anos, ainda tenho receio e vergonha de expor tudo o que eu passei. Tenho medo da reação do ex ao ler meu relato, tenho medo do que as pessoas pensarão de mim, tenho medo de ser chamada de mentirosa e recalcada, já que durante o relacionamento eu não falava nada. E este é justamente o primeiro ponto a ser mencionado: a vítima do abusador nunca fala nada, ela sofre sozinha e em silêncio.

Aquele relacionamento não começou da forma como qualquer relacionamento começa… não! O abusador tende a agir rápido para dar o bote em sua presa sem que ela possa reagir. Eles são sedutores, encantadores e mostram-se loucamente apaixonados. Você se sente uma mulher de muita sorte por ter um homem daqueles aos seus pés. O relacionamento evoluiu rápido e em dois meses ele fez com que eu abandonasse minha cidade e fosse viver com ele em outro estado. Apenas nós dois. Então eu me vi totalmente sozinha e vulnerável em uma cidade em que meu único porto seguro era ele. Não precisou nem de uma semana vivendo no apartamento dele para eu perceber mudanças drásticas em seu comportamento: o homem gentil e encantador deu lugar a uma personalidade totalmente controladora e persuasiva. Ele me provou, por A + B, que um casal, para viver junto e viver bem, deveria fornecer as senhas de e-mail, programas de trocas de mensagens e redes sociais (Orkut, na época).

Eu hesitei por um instante, mas ele condicionou todo o futuro do nosso relacionamento a esse “ato de confiança”, caso contrário, deveríamos encerrar ali mesmo nossa história. Lembrem-se que eu havia deixado tudo para trás no meu estado de origem: entreguei casa à imobiliária, vendi meus móveis, deixei minha família, meu emprego e meus amigos para trás. Larguei tudo para “viver um grande amor”, contrariei as pessoas que me alertaram do quanto aquilo soava precipitado e estranho (“Vai com calma, vocês acabaram de se conhecer…”). Eu não queria, em 4 dias aqui, voltar pra casa e reconhecer que essas pessoas tinham razão. Ninguém quer reconhecer um erro, um fracasso. Como ouvi no filme Serra Pelada: “É muito mais fácil ir atrás de um sonho do que desistir dele”.

Então, por (quase) sete longos anos, eu não desisti do meu sonho. E, em nome desse sonho, por (quase) sete longos anos, eu permiti ter minha privacidade invadida, quase que diariamente… e a privacidade de minhas amigas também, sem que, necessariamente, elas pudessem saber disso, já que aquilo que confidenciavam, muitas vezes só a mim, era lido pelo meu ex-marido também, que estava sempre atrás de sinais de alguma infidelidade minha. Quem dera eu tivesse sido infiel! Pelo menos isso faria com que eu me sentisse menos trouxa, afinal, a paranoia toda faria sentido… porque quando não faz sentido e a gente aceita os insultos mesmo assim, ficamos nos sentindo muito idiotas depois.

Por (quase) sete longos anos, eu permiti que ele me maltratasse psicologicamente, simplesmente por achar que ele era melhor do que eu. Por (quase) sete longos anos, muitas vezes eu engoli ofensas: eu era “sem noção” por fazer piadas, eu era “falsa e manipuladora” por estar chorando (não era fácil suportar o sofrimento que ele me causava), eu era “vagabunda” por vestir calças justas que mostrassem as curvas do meu corpo, eu era “ridícula” e “babaca” por… nem lembro mais o quê… E entre gritos e xingamentos, ameaçava terminar nosso relacionamento. Por que eu não aceitava e simplesmente ia embora? Aprendi que, muitas vezes, o que nos prende a uma pessoa não é o bem que ela nos faz. Sim, isso é patológico, mas acontece.

Às vezes eu nem entendia o que havia de errado comigo ou com a minha roupa, mas, por medo de perdê-lo, acatava todas as imposições e condições que ele impunha e assim fui me anulando cada vez mais, me perdendo em um mar de exigências sem sentido, que para ele nunca estavam suficientemente atendidas. Nunca era o bastante. Nunca estava bom. E assim ele fazia eu me sentir um lixo e garantia minha condição de submissão.

Algumas pessoas que conhecem a minha versão da história, hoje me questionam: “Como você aguentou tanto tempo?”. Este homem, que uma vez me acusou de ter transado com um amigo dele (que ele mesmo convidou para passar alguns dias na nossa casa), me levava do inferno ao céu em poucos minutos. Como diria o poeta Augusto dos Anjos: “A mão que afaga é a mesma que apedreja”. Quando ele percebia que a estratégia dele tinha passado dos limites e que aquilo poderia, definitivamente, fazer com que eu fosse embora, ele se arrependia, reconhecia-se como uma pessoa descontrolada e explosiva, que precisava de ajuda. E eu, antes que pudesse querer me salvar daquele mar de lama, pensava unicamente em ser a salvadora dele. Eu não queria me salvar. Eu queria salvá-lo. Eu queria ser diferente de todas as outras, que o abandonaram.

Eu nem imaginava que, ao querer ser forte, eu estava, na verdade, sendo fraca. E estava me enfraquecendo cada vez mais. Estava perdendo minha personalidade e minha essência para atender aos caprichos dele. Eu já não tinha mais nenhuma autoestima. Ele me fez acreditar que ele era o único homem capaz de amar “uma mulher como eu”, portanto, não acreditava que um homem melhor do que ele pudesse existir, muito menos se interessar por mim. Eu não comprava mais roupas novas, pois se eu me arrumasse para sair de casa ele diria que era para chamar atenção de alguém. Eu nunca usava maquiagem, porque ficava “com cara de puta”. Ah, e ele não dividia as tarefas de casa comigo, porque “não era do perfil dele”. É verdade que por muito tempo eu achava que tinha mesmo de assumir essas tarefas sozinha, já que ele me sustentava, fato que conferiu a ele uma certa licença poética para me ferir, me humilhar e pisotear em minha autoestima.

Quando voltei a trabalhar e passamos a dividir igualmente as despesas da casa, eu, inocentemente, imaginei que meus dias de escrava doméstica haviam chegado ao fim. Então começou minha tripla jornada (porque além de trabalhar de dia, eu também fazia faculdade à noite). E “ai de mim” se as meias e as cuecas, que ele deixava espalhadas pelo chão, na maioria das vezes debaixo da cama, não ressurgissem limpas dentro do armário! Depois da conclusão da faculdade, veio uma nomeação em um concurso… depois outro, e mais outro… até que a minha quarta nomeação chegou. Isso tudo em menos de 1 ano. Então, aos poucos, fui recuperando minha autoestima. Conheci pessoas com mais experiência de vida que eu que me deram muitos conselhos bons e nem imaginam… conheci mulheres incríveis que dividiram comigo sua experiência em relacionamentos abusivos sem sequer desconfiarem que eu passava por aquilo enquanto as ouvia. O serviço público permitiu eu me afastar um pouco daquele relacionamento tóxico, respirar fundo, me fortalecer… e voltar mais forte pra ele.

Voltei disposta a fazer dar certo. Voltei disposta a transformar aquele abusador no homem da minha vida. Eu só não estava disposta a ainda suportar o que eu vinha suportando. Eu queria outra vida com a mesma pessoa. E a vida me mostrou que isso não é possível. Que ninguém muda ninguém. Minha autoestima estava melhor do que nunca e quanto mais alta ela estava, pior ficava meu relacionamento. Até que um belo dia, além de não aceitar o que ele me disse, eu o desafiei. Ele gritou comigo e eu gritei mais alto. Então, ele apontou o dedo indicador na minha cara, perguntando quem eu pensava que era para falar com ele naquele tom. Eu não me acovardei e fui em frente. Estava disposta a enfrentá-lo, uma onda de vingança tomava conta de mim, eu queria fazer com que ele se sentisse exatamente da forma como ele havia feito eu me sentir naqueles anos todos. Eu não arredei o pé e eu não “calei a boca”, como ele tanto ordenou. Até que ele fez menção de levantar a mão pra mim e eu, ironicamente, provoquei:
“Você vai me bater agora também? Bate! Vai em frente, bate!”.

Eu juro pela minha mãe que eu desejei muito aquela bofetada! Queria um motivo, um único motivo para ir a uma delegacia e acabar com a vida daquele “filho da puta” (que a mãe dele me perdoe, ela não tem nada a ver com isso, é uma pessoa maravilhosa que por algumas vezes tentou abrir meus olhos e por quem tenho até hoje um carinho e uma admiração enormes, mas o predicativo, apesar de inadequado, é o que soa melhor neste momento). Mas ele era louco e não burro. Ele sabia que eu era uma pessoa bem instruída e previu o que eu pretendia fazer. Baixou a mão e, pisando duro, entrou no “nosso” quarto. Tirou a cama nova, que eu havia comprado, de dentro da suíte e a deixou em pé, no meio da sala. Foi ao quarto de visitas, pegou sua cama velha, enfiou na suíte, trancou a porta e foi dormir.

Eu sentei no sofá e, com os cotovelos apoiados nos joelhos, cobri o rosto com as mãos. Tremia muito. Chorei, num misto de alegria, alívio, medo e tristeza. Tirei uma foto da cama no meio da sala, enviei para uma amiga pelo whatsapp com a legenda “acabou”. Levei minha cama para o quarto de visitas, por onde morei durante uns 40 dias, até conseguir alugar esta casa na qual vivo há 2 anos.

E então vivi feliz para sempre.

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Romântica, mas de um jeito nada romântico. Escrever é como construir uma colcha de retalhos: vou juntando pedaços de histórias, sentimentos e pensamentos meus, seus, de outras pessoas. E a cada vez que você me lê, me cita e me compartilha, enche meu coração de alegria e mostra para alguém um pouco mais de você, de mim e, claro, dela mesma.

Amo escrever, mas amo mais ainda ser lida. ♥

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