A história foi vivida e escrita por Duda, uma menina de 17 anos que sentiu nessa idade o peso de perder uma das tubas uterinas. Uma história que serve de alerta para muitas meninas e mulheres.

 

Os primeiros sintomas

Tudo começou numa quarta-feira de madrugada. Estava na casa do meu namorado, quando senti um desconforto no lado direito da barriga. Eu, como estudante de Farmácia, logo pensei: “Fodeu, estou com dor no apêndice!”. Mas, como toda paranoia é pouca para mim e sei bem das minhas tendências hipocondríacas, deixei rolar por mais um dia.

Na quinta-feira à noite, tive uma febre que jamais imaginei que poderia. Minha mãe me deu um buscopan e consegui sobreviver mais uma noite. Na sexta-feira à tarde, minha tia me acompanhou ao posto de saúde aqui pertinho de casa. E foi aí que meu Inferno começou.

 

O primeiro diagnóstico

O posto, milagrosamente, estava vazio. O que é muito raro, já que em 99% das vezes que fui lá, parecia um show de rock, de tanta gente espremida esperando para ser atendida. Só que mesmo se ele estivesse em condições de superlotação normal, eu ainda teria sido atendida rapidamente, por conta da minha febre de 39ºC.

O médico que me atendeu já era conhecido: tinha passado com ele em outras vezes que me senti mal por outros problemas de saúde. Entrei no consultório, fui examinada (apertada, para ser mais especifica). “Suspeita de apendicite”, ele disse. Troquei olhares com a minha tia, que não acreditou em mim quando disse que estava com dor no apêndice, porque afinal – que tipo de pessoa no mundo saberia exatamente onde era seu apêndice? Órgão inútil, não é?

Tomei dipirona na veia e fui de ambulância para o Hospital do Tatuapé, que é referência em apendicite. Chegando lá, tive que esperar tanto pra ser atendida que vários pensamentos como “se meu apêndice estourar agora, eu vou morrer aqui mesmo, no meio de toda essa gente” e “para que me trouxeram de ambulância se vão demorar tanto assim? Dava para ter passado em casa e pegado meu carregador”.

estéril aos 17 - ambulância

Na ambulância – Foto tirada pela tia que a acompanhava

Minha vez chegou. Mas a suspeita do médico do AMA não era o suficiente. Como é um caso cirúrgico, é necessário fazer outros exames além do que o médico do AMA já havia feito, pois podem detectar possíveis complicações e evita-las. É um saco, mas necessário.

 

O segundo diagnóstico

Na parte de ultrassom foi onde tudo mudou: “olha, não parece ser apendicite não, parece mais um problema ginecológico, você tem um cisto aqui, óh” e o cara apontou para a tela. Eu, obviamente, não consegui identificar cisto coisa nenhuma e, por um momento, me perguntei como as mães se sentiam ao ver ultrassons de seus filhos ainda no útero. Elas conseguiam ver um feto ou só borrões em cinza, como os que estavam na minha frente?

Voltei para a sala 13, onde me dariam o diagnóstico final. Afinal, estava ou não com apendicite? “Vai pro ginecologista”, eles disseram. E fui pra sala de ginecologia (G.O., pros íntimos). Ter um cara de meia-idade enfiando dois dedos na sua vagina enquanto você está com dor não é nada agradável. Sem contar as perguntas de rotina: Você faz sexo com frequência? Quantas vezes por semana? Quantos parceiros? Usa camisinha? Toma anticoncepcional? Faz sexo anal?

Constatou-se, então, que meu cisto era um cisto normal de mulher e que nenhum problema ginecológico causaria uma febre beirando os 40ºC. Voltei pra sala anterior, desta vez com letras rabiscadas pelo ginecologista de a suspeita dele também era de apendicite. E com exames de urina e sangue, que haviam sido realizados antes do ultrassom e só ficaram prontos depois de três horas, que agora mostravam a presença de bactérias no meu organismo e um número enorme de leucócitos (confirmando o que a febre já dizia: infecção).

“Não é ginecológico. Então a dona Eduarda vai ficar internada, porque é apendicite.” Os únicos pensamentos que conseguiram se formar no meu cérebro depois dessa frase foi um grandeEU TO FODIDA!”, “FODEU MUITO”, “CARAAAAAAAAAAAAALHO!!!!!

 

O terceiro diagnóstico, de novo
estéril aos 17 - com a mãe

Duda e, ao fundo, sua mãe

Apenas para contextualizar: tenho um medo enorme de cirurgias. Sempre vi notícias de cirurgias que não deram certo e o paciente morreu. Para falar a verdade, tenho um medo enorme de morrer, no geral (que vai desde montanha-russa até ter minha casa invadida e tomar um tiro de 38. na cara).

Fiquei internada. Liguei para a minha mãe e ela foi correndo me ver junto com meu pai. Nos poucos minutos que fiquei sozinha, chorei igual criança. “E se eu morrer? E se eu acordar no meio da cirurgia? E se eu ficar tetraplégica por causa da anestesia? E SE?”

“A cirurgia é bem simples”, foi o que meu namorado disse quando dei a notícia. “Você não vai morrer”, ele me consolou através de uma tela de celular. O que era basicamente verdade: apendicite é uma das cirurgias mais simples, nada como aquelas que vemos em séries médicas como House M.D. Mas a paranoia não diminuía e tive que passar a noite de sexta para sábado dormindo ao lado de mais quatro mulheres numa poltrona que se transformava em “cama”.

Sábado de manhã. O médico veio ver como eu estava. Me apertou mais algumas vezes e disse que se o chefe dele confirmasse mesmo, eu iria direto para a faca. O chefe veio. Confirmou o que o anterior tinha dito: apendicite, cirurgia o mais rápido possível.

 

Finalmente, a cirurgia

Fiquei esperando na sala de cirurgia pelo que me pareceram décadas, imaginando onde caralhos estava o médico que ia me cortar, até que ele finalmente chegou. Aparentemente, ninguém tinha avisado que a paciente já estava pronta. E assim, me deitaram numa maca, me sedaram, conversaram comigo durante todo o tempo inicial que ainda estava acordada (com direito a comentários sobre minha tatuagem em alemão, meu piercing e até futebol), e me deram a famosa anestesia raquidiana (rack, para os íntimos). Dormi. Acordei. Mas não acordei depois do trabalho já feito. Acordei NO MEIO da cirurgia. Senti puxarem minha pele, se não estivesse completamente dopada provavelmente teria surtado e começado a gritar, mas só consegui gaguejar. Dormi de novo. Sonhei (ou tive alucinações?) com meu namorado. O que me deixou muito feliz, para a falar a verdade. Estava saindo da sala na maca, meio grogue, e só lembro de olhar para o médico e ouvi-lo dizendo algumas palavras: tuba uterina, apêndice, cisto.

Acordei num leito, mais dormindo que acordada, na real. “Você consegue mexer sua perna?” Juntei todas as forças e vi minha perna levantando. “Ótimo, vamos para o leito lá embaixo.” Saímos. Vi meu pai se juntar a mim, vi o elevador que pegamos, dormi de novo.

 

“Mãe, eu não poderei mais ter filhos?”

Acordei. Minha mãe estava do meu lado. Perguntei o que aconteceu. Então as portas do Inferno se abriram novamente para mim: “Seu pai falou com o médico e me explicou por cima, mas tiraram uma tuba uterina sua porque estava infeccionada, provavelmente por causa da infecção urinária que você teve no começo do ano. Também tiraram o apêndice, que estava apenas um pouco inchado, e o cisto que você tinha, que por acaso, era hemorrágico.” 

Tuba uterina. Fiz força para me lembrar das aulas de Biologia da escola, do seminário sobre sistema reprodutor feminino que vi na aula de Fisiologia Humana. A pergunta demorou dois segundos para aparecer: “Eu vou poder ter filhos?” Minha mãe pensou um pouco sobre como formular a resposta. “Com dificuldade, mas vai.”

Eu tenho dezessete anos, daqui sete meses farei dezoito. Mamãe me teve com a mesma idade que tenho hoje. E uma das principais preocupações dela sempre foi que eu seguisse o mesmo caminho. Ela sabia muito bem o quão bosta era ser mãe na adolescência, com todo mundo te julgando e você perdendo todas as festas porque carrega um projeto de parasita sugando suas energias.

Eu não queria ter filhos. Claramente já tinha falado sobre isso com meu namorado, mas apenas nas épocas em que minha menstruação atrasava um ou dois dias e eu entrava em pânico, mesmo sabendo que a chance de engravidar era quase nula por causa do anticoncepcional. Mas ouvir aquela palavra “dificuldade”, me baqueou levemente.

Não que eu sonhasse em ser mãe. Não conseguia me imaginar tendo tanto amor assim por alguém e, pior, sendo responsável por uma vida além da minha. Mas queria ter a opção. Queria que um dia, daqui uns dez anos, pudesse acordar e pensar “quero saber como é a maternidade e o amor incondicional” e apenas parasse de tomar remédios que me impossibilitam disso e transar loucamente até urinar em um pedaço de papel que cinco minutos depois me mostraria duas linhas, ao invés de apenas uma.

 

O que meu namorado vai pensar disso tudo?

Meu namorado, a pessoa com quem quero casar, como será que ele se sentirá quando souber disso? Ele vai ficar decepcionado? Bravo? Vai me deixar, porque não sou mais a fêmea saudável que biologicamente os machos procuram para procriar futuramente?

A resposta veio algumas horas depois, pela mesma tela de celular que ele havia me tranquilizado antes: ele já sabia da situação. E não, não me deixaria por causa disso, até porque ele também não tinha um desejo enorme dentro de si de ser pai. Ele foi me visitar no hospital um dia depois, aliás. Não conversamos sobre isso, mas uma hora teria que acontecer. E aconteceu.

Após a visita, ao receber a visita do namorado

Após a visita, ao receber a visita do namorado

 

Vamos falar mais a respeito disso, amor

Uma semana depois, num outro sábado à tarde, tendo como palco minha cama apertada de solteiro, sendo que no dia anterior meu fiel companheiro chamado Google me deu um monte de respostas para as perguntas que eu tinha: As tubas uterinas são os locais por onde passam os óvulos. Se com duas há 100% de chance de engravidar, com uma existe apenas 50%. Nesses casos, pode-se fazer um tratamento hormonal, se ainda houver dificuldade, há a inseminação intra-uterina. Também me mostrou sites onde mulheres com o mesmo problema que o meu trocavam informações, algumas sendo bem sucedidas e dando relatos do tipo “tive que tirar uma tuba há dez anos e hoje meu filho completa cinco anos”. Outras, nem tão bem sucedidas, com outros relatos sobre uma imensa dificuldade. Com todas essas informações na minha mente e a paranoia crescente, conversamos sobre filhos. Ele tem vinte e um, tenho quatro anos a menos que isso. Era meio idiota conversar sobre aquilo agora, mas eu me sentia quase estéril e isso abala qualquer mulher, mesmo que ela não queira procriar.

“Se um dia quisermos, podemos tentar barriga de aluguel. Ele vai ter nossos genes e você ainda vai ficar com o corpo intacto.” Era uma boa ideia, mas se um dia eu realmente quisesse ser mãe, gostaria de fazer tudo do jeito oldschool. Com chá de bebê, foto brega do pai beijando a barriga e o caralho a quatro. “Ou podemos simplesmente transar bastante”, o que me parecia uma ideia bem mais agradável. E começamos uma conversa sem sentido sobre as possibilidades do nosso filho hipotético nascer com meus olhos claros e a pele negra dele. Se teria black power igual o pai ou não. Essas coisas.

Daqui dois dias vai fazer duas semanas que fiquei com 50% de chance a menos de engravidar. E eu já não surto mais sobre isso, já não fico chorando quando penso em todas as possibilidades futuras sobre formar uma família ou não. Não sofro por antecipação e não estou louca para ter um filho, porém estou cuidando o máximo possível para não perder minha outra tuba.

Uma mulher nunca sabe exatamente o que quer fazer com o corpo dela e com o futuro, até que suas chances são diminuídas drasticamente.” (Hantzis, Eduarda)

 
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