Ser mãe e filha: o desafio de uma vida

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Sempre pensei que antes de ser boa mãe teria que ser boa filha, mas tenho impressão que minha mãe morreu sem me conhecer de verdade, sem entender meus pontos de vista, sem perceber minhas escolhas.

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Ser filha foi um grande desafio para mim, pois eu era muito cheia de si, muito dona das minhas verdades, militante de causas próprias. Queria desbravar o mundo, descobrir tudo por mim mesma e tinha uma ansiedade horrível para estar no mundo, na rua, no meio de tudo.

Hoje reconheço isso e vejo que não fui má filha e nem minha mãe, que tentava me frear, foi má mãe. Mas nem de longe fui a filha que ela queria que eu fosse e muito menos tivemos tempo para que ambas entendessem o lado uma da outra. Eu convivo hoje com essa culpa, com essa mancha.

Pensando nisso, decidi prestar mais atenção em minha filha, em cada sinal e em como ela vai se formando como pessoa.

Decidi que seria a orientadora, a acolhedora, o suporte, mas não a superproteção, o esconderijo, a desculpa e, muito menos, a que acoberta.

E tem dias que é tão difícil. Ver que a filha que você ama e que idealizou como a pessoa mais correta e perfeita do mundo, a que salvaria a tudo e todos, escolhe enrolar para uma simples tarefa, por exemplo. Ou que não enxerga o seu esforço em, muitas vezes, comprar algo ou até desdenha com aquela cara de mau humor quando lembramos da lição, do livro ou do banho.

mãe e filha

Não vou mentir: tem dias que sinto vontade de sumir e é nessas horas que lembro de minha mãe insistente me perseguindo para arrumar o quarto, para fazer as coisas e eu sempre achando que ela só queria mesmo ser chata.

Eu jamais quis ser chata. Eu jamais quis dizer ‘não’ para minha filha só para vetá-la de algo. Pelo contrário! Por mim, eu diria sempre ‘sim’ e teria à mão tudo o que ela mais sonhara em ter e fazer, na mesma hora.

Mas tenho o dever de ser mais do que a provedora e realizadora de sonhos e vontades. Tenho a obrigação de formar um indivíduo e para isso, terei que ser chata. Terei que ser ‘minha mãe’ da vez.

Tenho o dever mais árduo da vida de uma mãe, que é PERMITIR que minha filha passe por frustrações para que aprenda a lidar com elas. Não apenas com as situações de frustração, em si, mas lidar consigo mesma diante de tais frustrações.

É doloroso, mas é o único jeito de fazê-la ser alguém capaz de cuidar de si sem esperar que o Estado, um grupo ou uma outra pessoa o faça. E é a melhor forma de fazê-la perceber os próprios limites e até como dizer ‘não’ a outras pessoas e situações futuras.

E minha tarefa de ser mãe e filha me fez perceber que minha mãe me ensinou muito mais do que muitas mães que ainda estão aqui diante de seus filhos, mas são incapazes de permití-los frustrarem-se.

Claro que não a abandonarei jamais e a cada frustração estarei ao lado dela para acolhe-la, mas que ela aprenda desde sempre: toda escolha tem consequências e você precisa tentar prevê-las antes de decidir e lidar com elas depois decidir.

Ser mãe e ser filha é complicado, mas no fundo vale muito a pena quando aprendemos a lidar com a nossa própria frustração de permitir que os filhos lidem com as próprias frustrações.

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Romântica, mas de um jeito nada romântico. Escrever é como construir uma colcha de retalhos: vou juntando pedaços de histórias, sentimentos e pensamentos meus, seus, de outras pessoas. E a cada vez que você me lê, me cita e me compartilha, enche meu coração de alegria e mostra para alguém um pouco mais de você, de mim e, claro, dela mesma.

Amo escrever, mas amo mais ainda ser lida. ♥

3 Comentários

  1. Thatu….que demais…perfeito….acho que deveria ser pauta na próxima reunião de pais do grupo escoteiro…..rsrs, brincadeiras á parte, acho que seria muito bom mesmo que todas as mães lessem….e filhas tb….parabéns

    • Que honra, Chefe Korina!! Muito obrigada pelas palavras, de verdade. EStamos vivendo e tentando acertar a cada passo, né? Tem hora que tropeça, cai. Mas aí levanta e continua. Beijooos <3

  2. Pingback: A culpa é sempre da mãe ⋆ Mãe de Adolescente